João Roberto Peixe nasceu em 1949, na cidade de Garanhuns-PE. Formado pela Faculdade de Arquitetura da UFPE, complementou sua formação com os cursos de Artes Gráficas e Percepção Visual e de Fotografia, na mesma instituição.
Escolheu o design e a militância política como sacerdócios. Fundou, em 1972, a Multidesign, a mais antiga empresa da área em funcionamento no nordeste. Através dela desenvolveu sistemas de identidade visual, como o das Baterias Moura, Home Center Ferreira Costa, Grupo Bompreço, Coelce (Companhia de Eletricidade do Ceará) e Supermercados Nordestão. Hoje, a Multi tem o comando de seu filho, o designer Ricardo Notare, o “peixinho”

Militante político desde 1968, foi presidente da UEP (União dos Estudantes de Pernambuco) no ano de 1970. É um dos fundadores do PT e foi seu primeiro presidente em Pernambuco. Exerceu de 1986 a 1988 o cargo de diretor geral de descentralização político-administrativa da Prefeitura da Cidade do Recife e, em 1995, foi Secretário do Patrimônio Cultural e Turismo da cidade de Olinda.
Desde 2001 é o Secretário de Cultura da Cidade do Recife, onde vem implementando uma política cultural que tem como eixo a valorização da diversidade cultural da cidade. Foi com ele que conversei sobre um tema que lhe entusiasma: a economia da cultura.
PE NEGÓCIOS - Qual a participação da Cultura nas prioridades do Recife?
JOÃO ROBERTO PEIXE - Bem, se quisermos ser justos, é preciso reconhecer que a atual gestão é a primeira a desmembrar a cultura, deixando-a como o centro das atenções de uma secretaria. Antes ela estava sempre conjugada com outras. É importante ressaltar que isso seTraduziu em investimentos. Quando assumi a pasta, os gastos com a Cultura se limitavam a 1,5% do orçamento. Hoje esse número se aproxima de 3%, considerando os suplementos, o que, por exemplo, equivalerá a cerca de R$ 60 milhões em 2007.
PE - O que é a "economia da cultura", Secretário?
JOÃO ROBERTO PEIXE - O crescimento do turismo cultural no mundo estimulou o Recife, que tem uma rica diversidade nessa área, a olhar experiências bem sucedidas de cidades que estão dando um tratamento à cultura, incluindo-a como tecido da sua base econômica. Neste contexto, cidades como Nantes na França, Bilbao na Espanha e Buenos Aires na Argentina têm apresentado modelos interessantes.
PE - Poderia exemplificar?
JOÃO ROBERTO PEIXE - Claro. Veja o caso de Nantes, uma ilha fluvial que está buscando uma renovação urbana através da releitura da função de antigas edificações, como é o caso da antiga fábrica de biscoitos “Le Lieu Unique”, que se tornou um dos mais importantes centros culturais da França. Já Bilbao estruturou um plano eficaz para sediar o Museu Gugenheim consciente do que uma atração desse porte poderia impactar economicamente na cidade. Buenos Aires fez do circuito cultural seu principal apelo turístico.
PE - Quais são os pilares dessa economia?
JOÃO ROBERTO PEIXE - São quatro. A valorização das indústrias culturais locais, o que incluem aí exposições artísticas, arquitetura, produção audiovisual, cultura popular, shows e venda de CDs. Outro pilar é o conteúdo explorado pelos meios de comunicação tradicionais e contemporâneos; afinal, fora o jornalismo e entretenimento, as manifestações artísticas e culturais como música, cinema e teledramaturgia ocupam um bom espaço nas mídias. O terceiro é a promoção do turismo cultural, o que incluí ai um calendário expressivo de festas e acontecimentos baseados em símbolos da nossa cultura. E, por fim, a valorização do nosso patrimônio cultural, material (edificações históricas e simbólicas) e imaterial (manifestações artísticas).
PE - O que estamos fazendo para nos tornarmos uma economia da cultura?
JOÃO ROBERTO PEIXE - Bom, o primeiro passo foi montar um plano estratégico municipal de cultura. Fizemos isso em 2003. Ele estabelece ações de médio e longo prazo amplamente debatidas e revisadas em conferências municipais (a 1ª aconteceu em 2001 e a 2ª em 2005) e pelo conselho municipal de políticas culturais, formado por 20 membros do poder público e outros 20 da sociedade civil, eleitos em fóruns permanentes ligados às diversas representações culturais da nossa cidade.
PE - Qual é a ação central para alcançar esse objetivo?
JOÃO ROBERTO PEIXE - O complexo turístico-cultural Recife-Olinda, que funciona potencializando a integração cultural entre as cidades. O projeto, que funciona desde 2003, foi formatado com quatro territórios formados por 18 núcleos culturais identificados através do patrimônio material e imaterial que caracteriza cada área. O propósito foi interligar e oferecer ao turista e ao cidadão das duas cidades um roteiro regular baseado na cultura, aquecendo o comércio e o serviço que se forma em torno desses núcleos e aproveitando as potencialidades artísticas que já existiam nessas regiões. Já foram gastos R$ 144 milhões em obras concluídas e estão em andamento mais R$ 243 milhões.
PE - Existe outra ação de porte que mereça ser citada?
JOÃO ROBERTO PEIXE - Sim. O programa Multicultural, que interage com os objetivos do complexo e está fundamentado num tripé: o apoio a festivais, cursos, oficinas e mostras envolvendo artes cênicas, gastronomia, arte visual, museus e música; o suporte a mercados que se estruturam ao redor desses eventos para auxiliar o artista a obter renda da sua arte; e a estruturação de refinarias, bases físicas que irão proporcionar regularidade na formação, produção e difusão cultural. A do parque do Caiara está sendo financiada pela Petrobrás e ficará pronta em 2008. A do Sítio Trindade, com recursos do Ministério da Cultura e da Prefeitura do Recife, em 2009. A de Peixinhos já está sendo adaptada para ser um espaço multicultural.
PE - Porque lhe chamam de Peixe, Secretário?
JOÃO ROBERTO PEIXE - Esse apelido foi colocado numa partida de futebol na Faculdade entre calouros e veteranos. O cara chamava “Peixe, Peixe”. Não é que pegou e virou nome! Veja como é a vida.

Categories:

Deixe um comentário