O empreendedor da MV Sistemas, Paulo Magnus, desenvolveu uma enorme capacidade de reinventar seu negócio e propor soluções úteis dentro do universo que compreende a gestão hospitalar. Em virtude disso, o presidente da empresa, que é líder nacional em soluções integradas de gestão de saúde e faturou.
Paulo tem duas paixões que denunciam suas raízes. A primeira ele cultivou desde criança e atende pelo nome de Sport Club Internacional de Porto Alegre. Pelo time colorado, foi capaz de viajar 15 horas para assistir jogar em Abu Dhabi, Emirados Árabes, no Mundial Interclubes de Futebol. Já adulto, Magnus adotou o Recife. Aqui chegou ao final da década de 80 e logo encontrou uma segunda paixão, o vôlei de praia. Hoje, nos finais de semana, não é difícil encontrar o empreendedor de mais de 1,90 numa das seis quadras da Avenida Boa Viagem, em que costuma se exercitar.
As duas paixões dizem muito sobre Paulo Magnus, que no ano passado foi reconhecido cidadão pernambucano. Elas representam vínculos. Do Rio Grande do Sul carrega a história familiar, de luta e superação. De Pernambuco, as oportunidades que afirmaram sua competência e a família que conseguiu formar.
Em dezembro de 2011, no seu aniversário de 50 anos, um evento para 500 convidados, era visível a motivação de integrar as culturas com as quais criou intimidade. A apoteose culminou com uma apresentação do forrozeiro Santana junto com uma banda típica gaúcha, com direito a um acompanhamento vocal de Paulo Magnus cantando Luiz Gonzaga em traje gaúcho e com o chapéu típico do nordestino.
Certamente, a maioria das pessoas que estavam naquela linda festa não faz ideia do quanto Magnus teve que lutar para alçar a condição atual. Nascido caçula de uma família de colonos com descendência alemã, Paulo perdeu o pai aos 12 anos. Criado na roça, trabalhou como leiteiro e engraxate. Na colônia de São Pedro, estudou até a oitava série. De lá veio para Torres dividir um quarto de pensão com um dos quatro irmãos para estudar o segundo grau. Torres abrigava muitos argentinos, com quem Paulo aprendeu a hablar espanhol. Aos 15 anos trabalhava como faz-tudo de uma imobiliária.
A oportunidade certa
Um dia, o professor entrou na sala e anunciou uma oportunidade de trabalho como faturista hospitalar. Ela influenciaria a trajetória de Paulo. Dez jovens fizeram o teste, que se resumia a leitura de prescrições médicas e a contagem de medicamentos do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. Magnus ganhou o emprego em junho de 1978 e lá ficou por um ano e meio. Nesse intervalo, foi a Porto Alegre e fez um teste no Hospital de Reumatologia, para atuar no mesmo setor. Passou. Voltou a Torres para conversar com a religiosa que era a diretora-geral do hospital. Ela aceitou demiti-lo pagando tudo o que ele tinha direito, contanto que nos fins de semana Paulo voltasse para fazer o faturamento.
Nos dois hospitais, o jovem faturista conseguiu reduzir as equipes de dez para duas pessoas. Descobriu assim o valor de um processo bem planejado. No hospital de Porto Alegre, enviava boletins para uma empresa terceirizada chamada Hospidata, que digitava as informações, gerando um documento de cobrança para o Inamps. Nesse intervalo, começou a fazer serviços extras de faturamento para os médicos, entendendo assim que existia um nicho para ser explorado chamado terceirização do faturamento hospitalar.
Logo foi convidado para chefe do faturamento do Hospital Petrópolis, também em Porto Alegre, e disse ao diretor que o entrevistou: “Eu resolvo o problema trabalhando meio turno”. E foi contratado. Voltou ao Hospital de Reumatologia, explicou a situação e disparou a mesma frase: “Eu resolvo o problema trabalhando meio turno”. Lá a frase de efeito não funcionou. Que sorte! Pouco depois, Magnus convenceu o diretor do Hospital Petrópolis a terceirizar o faturamento com uma empresa aberta por ele.
Assim surgiu a primeira experiência como empresário, fundando a RM Processamentos de Dados. Esse ciclo durou seis anos e reuniu mais três sócios, colegas de trabalho no Hospital de Reumatologia. Nesse intervalo, Paulo se formou em engenharia eletrônica pela PUC-RS, onde cursou ainda três períodos de informática. Observando o faturamento do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, onde foi selecionado para um emprego (que não aceitou), ele se convenceu de que a atividade que desenvolvia se tornaria uma commodity, sendo substituída por sistemas de gestão hospitalar. Então tentou convencer os sócios a migrar a RM para o desenvolvimento de softwares, mas não obteve êxito.
Decidiu romper a sociedade para apostar nesse caminho. Foi acompanhado por um deles, Valdir Vargas, que era especialista em faturamento para operadoras de saúde.
O nascimento da MV
Com Valdir, Paulo fundou em 1987 a MV Informática, oferecendo sistemas modulados para hospitais. No mesmo ano, veio ao Recife brincar o Carnaval e conseguiu uma reunião na Associação Nordestina dos Hospitais, por intermédio do cirurgião Carlos Albuquerque, então proprietário do Hospital Geral de Jaboatão.
Paulo tinha apenas 15 minutos, mas conseguiu falar 90 sobre as melhorias nos processos de faturamento dos hospitais. Com a ótima aceitação da sua apresentação, decidiu trazer para o Recife uma filial de sua empresa e convidou Wilton Ribeiro, então gerente da Hospidata, para morar na capital pernambucana e ser sócio da filial com 20% do negócio.
Foi um período difícil. Após um ano de atuação, Wilton desistia da sociedade na filial Nordeste. Em Porto Alegre, Valdir Vargas também queria sair da sociedade (acabou deixando a sociedade ao passar num concurso público). Magnus levou Wilton para gerenciar a matriz e intensificou sua presença em Pernambuco. Quando chegava ao Recife, trazia na bolsa peças de picanha do Rio Grande do Sul para preparar churrasco no fim de semana na casa de José Leôncio de Carvalho Neto, médico e diretor de hospital público que reunia os colegas de pós em gestão hospitalar, também diretores de hospitais. O grupo contava com Antônio Melo, diretor do Hospital São Vicente, de Serra Talhada, de propriedade do médico e deputado federal Inocêncio Oliveira, com quem Paulo desenvolveu uma fraterna amizade.
Com Inocêncio aprendeu a transitar no circuito político. “Ele me ensinou a tratar as pessoas com atenção diferenciada e a não aceitar interlocutores numa relação política”, reconhece Magnus, que a partir da amizade com o deputado desenvolveu relacionamentos políticos e com gestores de saúde de todo o Brasil através da Federação Brasileira de Hospitais.
Do relacionamento informal com o grupo de médicos gestores veio a confiança e, logo depois, os negócios. Em 1990 um megacontrato ganho com o governo de Pernambuco envolveu a implantação pela MV de um novo sistema de cobrança que atendia os 182 hospitais que formavam a rede de saúde, remunerando a empresa em 2,5% sobre o faturamento. A mudança aconteceu graças a conhecimento especializado sobre o assunto adquirido por Paulo no Estado do Paraná, que serviu de modelo nacional. Com o contrato, a realidade mudou da água para o vinho.
Uma década de reinvenção
O momento tornou-se de expansão e o olhar de Magnus recaiu sobre o universo filantrópico a partir da Confederação das Misericórdias do Brasil, entidade que representa mais de 40% dos leitos hospitalares do país, atendidos pelo SUS. Através da prestação de serviços da MV ao Hospital Tricentenário de Olinda, cuja religiosa diretora, irmã Querubina, integrava a mesma congregação de irmã Dulce, Paulo foi bater em Salvador, na Bahia, para conhecer e apoiar a obra social da irmã, que vivia exclusivamente de doações.
Em 1991 a confederação credenciou a MV para realizar serviços nos hospitais filantrópicos, que ainda hoje representam um terço do número de clientes (chegaram a ser 60% do total). Dois anos depois, os hospitais conveniados com o SUS representavam quase 100% do faturamento da MV.
Mas começou a era Adib Jatene como ministro da Saúde e com ele um ciclo de empobrecimento dos hospitais conveniados ao SUS, na opinião de Magnus. “O projeto do ministro implementou uma redução significativa nos leitos públicos hospitalares, buscando aumentar a qualidade na assistência à saúde. Nessa lógica, um hospital que recebia por 100 internações passou a receber por 70 e precisava atender com maior eficácia. Essa medida, somada à conversão da tabela do SUS de URV para Real, desvalorizou em média 20% o valor de remuneração dos serviços, cenário que proporcionou um ambiente de risco aos prestadores em virtude dos valores, que passaram a estar abaixo da linha de sustentabilidade, contexto agravado pelos atrasos nos recebimentos”, observa o presidente da MV.
Diante desse cenário, era necessário redirecionar o foco de atuação. A saída visualizada era ampliar a compreensão sobre gestão hospitalar e desenvolver uma solução tecnológica robusta, capaz de atender à demanda dos grande hospitais privados do Sudeste do Brasil, diminuindo a dependência dos hospitais conveniados ao SUS, que estavam em processo acelerado de empobrecimento.
Para efetivar esse caminho o primeiro passo foi reunir os líderes de desenvolvimento de sistemas da empresa, que estavam espalhados pelas unidades do Recife, Porto Alegre e Mato Grosso, na unidade da capital pernambucana, cidade onde Paulo morava, mantinha sua estrutura de gestão e contava com o apoio da UFPE. O segundo movimento foi escolher a tecnologia. O grupo tomou a decisão de investir na tecnologia Oracle, na época a mais cara, mas que oferecia um horizonte de vida útil bem maior, sendo utilizada naquele momento apenas por grandes corporações. Pesou a favor na decisão o fato de o então diretor comercial da empresa, Carlos Bower, ter sido executivo da Oracle. A aposta de Paulo é que ocorreria um barateamento dos equipamentos de TI necessários à utilização da ferramenta, que, naquele momento, tinha valores proibitivos de US$ 3 mil por estação de trabalho. A terceira ação foi buscar um laboratório para aprimorar a ferramenta. Magnus adquiriu o Hospital Santa Elisa (hoje Hospital Memorial Guararapes) com essa finalidade. Todos esses movimentos foram realizados numa época de queda e estagnação de faturamento, que duraram aproximadamente cinco anos.
Informação relevante
Em 2001, Paulo Magnus participou da seleção da primeira turma de empreendedores da Endeavor no Brasil. Foi eleito por uma banca que contava com os empresários Carlos Alberto Sicupira e Jorge Paulo Lemann, controladores da Anheuser-Busch InBev e dois dos homens mais ricos do Brasil, além de Pedro Moreira Salles, banqueiro brasileiro que preside o conselho do Itaú-Unibanco. Através do Instituto Endeavor, Paulo teve ainda mentores como Vicente Falconi, sócio fundador e consultor do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (Indg).
Em 2001, Paulo Magnus participou da seleção da primeira turma de empreendedores da Endeavor no Brasil. Foi eleito por uma banca que contava com os empresários Carlos Alberto Sicupira e Jorge Paulo Lemann, controladores da Anheuser-Busch InBev e dois dos homens mais ricos do Brasil, além de Pedro Moreira Salles, banqueiro brasileiro que preside o conselho do Itaú-Unibanco. Através do Instituto Endeavor, Paulo teve ainda mentores como Vicente Falconi, sócio fundador e consultor do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (Indg).
Mudando de patamar
Em 1998, o sistema MV 2000 (uma robusta ERP especializada no ambiente hospitalar) foi implantado inicialmente no Hospital Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador, e no Hospital da Unimed de João Pessoa. No mesmo ano, o governo de São Paulo resolveu adotar o modelo de gestão das suas unidades de saúde pública através de organizações sociais (OS) e o hospital piloto escolhido foi o Hospital Geral de Pedreira, gerenciado pela Congregação Santa Catarina, que escolheu a MV para implantar sua nova solução. Paulo, um empreendedor com um enorme faro para oportunidades, mergulhou pessoalmente no projeto, emergindo dele como um profundo conhecedor desse modelo.
Um ano depois de lançado, o MV 2000 chegava a São Paulo pelo Hospital Bandeirantes. Logo em seguida, a solução seria adotada pelos hospitais São Camilo e Nove de Julho, que em 2003 recebeu o título de melhor hospital do Brasil.
Além dos citados, hoje a solução roda em instituições de saúde como São Rafael e Espanhol, na Bahia; Moinhos de Vento e Mãe de Deus, no Rio Grande do Sul; Mather Day e Biocor, em Belo Horizonte; Casa de Saúde São José e Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro; Imip e todos os hospitais estaduais em Pernambuco. Nos Estados do Espírito Santo, Mato Grosso e Tocantins, a MV é majoritária nos mercados público, privado e filantrópico.
Em uma década, o faturamento da empresa criada por Paulo Magnus foi alavancado de 7 para 100 milhões de reais.
Em 2008, quando o vice-governador João Lyra Neto assumiu a função de secretário de Saúde do governo do Estado, buscou conversar com profissionais que sugerissem caminhos para melhorar a saúde, em especial soluções que agissem nas filas dos corredores das emergências públicas, que se encontravam povoados de macas com pacientes aguardando atendimento em condições subumanas.
Uma dessas conversas ocorreu com Magnus, que disse ao vice-governador que desejava mostrar soluções que estavam em funcionamento. Viajaram com uma comitiva de gestores que incluía seu secretário executivo, Frederico Amâncio (hoje CEO de Suape), e o presidente do Lafepe, Luciano Vasquez. Começaram pelo Espírito Santo e lá conheceram o Prontuário Cidadão, uma solução que interliga as informações de saúde de todos os pacientes atendidos naquele Estado. Continuou em São Paulo no Hospital Geral de Pedreiras, que tem seu modelo de gestão através de OS. Finalizaram no Rio conhecendo o projeto das UPAs, uma solução que cria unidades de anteparo no atendimento, buscando aliviar o fluxo e qualificar o atendimento das emergências dos hospitais públicos.
A viagem proporcionou a Magnus a certeza de que os gestores públicos da saúde de Pernambuco haviam assimilado suas recomendações. Entretanto, seis meses depois, ele foi surpreendido com a notícia de que o Hospital Miguel Arraes (HMA) estaria sendo inaugurado utilizando o mesmo modelo vigente. Imediatamente solicitou, por intermédio do hoje secretário de turismo do Recife, André Campos, uma agenda com o governador Eduardo Campos. Recebido em palácio, opinou defendendo que o caminho de continuidade do modelo levaria ao mesmo destino de outros grandes hospitais como Restauração e Getúlio Vargas, onde eram frequentes a falta de profissionais e os corredores superlotados. “Daquela forma, o benefício proporcionado pelos novos hospitais seria ofuscado em poucos meses pelas fragilidades conhecidas”, defendeu o presidente da MV.
O governador ouviu atentamente. Um mês após, Magnus recebeu uma ligação de Lyra Neto o convocando para uma conversa. Nela, informou que o governo havia decidido por implantar as UPAs e o modelo de gestão através de organizações sociais (OS) defendido por Paulo.
Assim o Imip foi a primeira organização social escolhida para gerenciar o HMA. Como já era cliente da solução MV 2000, levou-a para o Hospital Miguel Arraes e, consequentemente, ela passou a ser utilizada também nos outros hospitais (Dom Hélder e Pelópidas Silveira) e nas UPAs.
Velocidade máxima
Atualmente Paulo Magnus está empenhado na disseminação do modelo OS pelo país, tendo conseguido sucesso em Estados como Tocantins, Mato Grosso, Alagoas e Rio Grande do Norte. Internamente tem trabalhado na consolidação de seu modelo de governança, buscando a internacionalização e com isso a ampliação de seus mercados de atuação. Em janeiro adquiriu a Hospidata (citada no início desta reportagem), a mais antiga empresa de gestão na área de saúde do país, que tem como foco de atuação o mercado de pequenos e médios hospitais, segmentos pouco explorados pela MV.
Paulo criou ainda no ano passado uma nova empresa, a Green, que tem como objetivo acabar com a utilização do papel no setor de saúde, baseada nas premissas de que ocupam grandes áreas nos hospitais e causam danos à natureza. A proposta da Greem foi testada na UPA do bairro da Imbiribeira, no Recife, que se tornou a primeira organização de saúde do país a funcionar sem papel, contemplando a integração de soluções que vão desde a certificação digital até o uso da ferramenta ECM e processos de manipulação de documentos através de imagens digitais.
“Em menos de dez anos anos, espero que a Green alcance o tamanho que a MV tem hoje”, visualiza Paulo Magnus, se posicionando mais uma vez como o capitão do time.
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