O presidente do Conselho Regional da Amcham Recife e empreendedor da Elcoma Computadores, Julio Gil Freire, é um exemplo de que o conhecimento é um caminho sustentável para o mérito.



Julio Gil Freire nasceu no município agrestino de Arcoverde, onde estudou com Francisco Saboya Neto (presidente do Porto Digital) e Elísio Cruz Jr. (dono da imobiliária Newville) no colégio Cardeal Arcoverde. Aos nove anos veio morar no Recife e estudar no Colégio Salesiano, de onde saiu para cursar eletrotécnica na Escola Técnica Federal de Pernambuco.
Fez vestibular para engenharia eletrônica em 1979 e ingressou no ITA, indo morar em São José dos Campos, em São Paulo. Formado aos 22 anos, voltou para a capital pernambucana e enviou o currículo para a Philips, onde foi entrevistado pelo conterrâneo Marcos Magalhães, que se tornaria mentor do jovem engenheiro. Doutor Marcos já era o presidente da Sul América Teleinformática, uma subsidiária da Philips pela qual Julio Gil foi contratado para montar e administrar o laboratório de desenvolvimento de produtos. Seu objetivo era criar um mix nacional para o mercado de telecomunicações, composto por telefones e centrais telefônicas digitais. Julio chefiava trinta profissionais especializados em desenvolvimento, prototipagem, documentação e codificação, testes e produção.
Em seu primeiro período na Philips (1984-92), Julio Gil esteve por dois anos na Holanda. Lá ele fez um mestrado em engenharia eletrônica e trabalhou em Eindhoven, no Philips Natlab, um parque tecnológico considerado o cérebro de inovação da empresa onde todas as tecnologias da companhia eram iniciadas e desenvolvidas. Integrou, nessa época, a equipe de desenvolvimento do compact disc (CD), produto inventado pela multinacional holandesa.
Em 1992 veio o fim da reserva de mercado brasileira e a multinacional holandesa decidiu desativar a unidade pernambucana, vencida pela falta de vigor industrial demonstrado pelo Estado naquele momento, e transferi-la para São Paulo.
Julio Gil não quis seguir a companhia. Tinha com 31 anos, era casado, pai de dois filhos, e queria estudar gestão. Escreveu para as universidades americanas e, ao participar do processo seletivo, foi aprovado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) para ser aluno do Master of Science in Management of Technology. Foi quando se mudou com a família para Boston.
O curso proporcionou ao engenheiro um novo olhar, menos cartesiano e mais horizontal, passando a considerar o mundo da administração e suas variáveis incontroláveis. Depois de 18 meses no mestrado, Julio viveu um período semelhante como consultor da AT Kearney, trabalhando com reengenharia de processos em companhias como a Philips americana e a GM brasileira.
Depois de quase quatro anos fora do Brasil, decidiu voltar a Pernambuco, atendendo a um pedido da esposa, Mônica. Foi trabalhar no Grupo Raymundo da Fonte, assumindo a área de desenvolvimento de negócios. Nos 12 meses em que trabalhou na companhia, iniciou e conduziu dois projetos de consequências importantes até os dias atuais: a abertura do portfólio da marca Brilux e a criação do sabonete Even.
Um pouco de história
No início da década de 1980 o governo brasileiro optou por uma reserva de mercado que proibia ou sobretaxava produtos globais que tivessem uma oferta similar nacional, caminho que isolou o Brasil do livre comércio e impôs ao País um hiato tecnológico. O lado positivo desse momento histórico foi o desenvolvimento de uma mão de obra especializada nacional. Julio Gil Freire é produto da geração de profissionais que suportou a indústria nacional nesse tempo.
A abertura de mercado, promovida pelo presidente Fernando Collor, tornou evidente o descompasso existente entre o Brasil e o resto do mundo, em termos de competitividade. Ficou claro que o caminho da proteção comercial foi errado porque desenvolveu um ambiente de competitividade artificial. Porém, para profissionais como Julio Gil, envolvidos no desenvolvimento de tecnologias, o período de reserva de mercado foi especialmente rico e proporcionou a Julio a oportunidade de vivenciar uma rotina de busca pela inovação tecnológica, o que lhe conferiu autoestima para apostar em sua capacidade de realização, um atributo que, anos depois, seria de fundamental importância para a viabilização do projeto Elcoma.
“Trabalhar com Raymundo da Fonte (uma legenda industrial do Estado) foi um grande privilégio. Ele foi, para mim, uma inspiração como empreendedor. Um pernambucano que conhecia bem o ambiente concorrencial com multinacionais e soube explorá-lo com maestria”, resume Julio Gil.
Atuando na indústria pernambucana, ao final de 1996 Julio recebeu uma ligação do mentor e presidente da Philips para a América Latina, Marcos Magalhães, que disparou: “Sua passagem para Bruxelas está comprada. Você vai participar de uma entrevista com o presidente mundial da Philips Components, o tailandês Yc Lo”. Aceitou a missão, e voltou de Bruxelas como diretor da Philips Eletrônica do Nordeste, trazendo para o Recife a unidade industrial da marca holandesa de componentes eletrônicos que antes operava no município paulista de Ribeirão Pires. Quatro anos depois, a companhia europeia decidiu descontinuar a divisão de componentes eletrônicos no mundo.
A fábrica da Philips no Recife era dividida em duas áreas que produziam gerações distintas de componentes. Inicialmente, a decisão da multinacional foi descontinuar a área que fabricava os componentes mais antigos. Marcos Magalhães, Julio Gil Freire e os executivos da companhia conseguiram viabilizar uma solução transitória em que a divisão foi assumida pelos próprios funcionários, um management buyout que originou a Phoenix, empresa que nasceu com um contrato de fornecimento, garantido durante três anos, com a inglesa BC Components.
Julio Gil continuou por mais um ano à frente da outra divisão, que produzia microcomponentes de última geração, até que a Philips resolveu vendê-la também. A Yageo, multinacional de Taiwan, havia comprado todas as operações de componentes eletrônicos da empresa holandesa no mundo, menos a do Recife, que estava fora de seu foco de atuação.
A divisão de microcomponentes foi oferecida a Julio Gil Freire, que negociou a compra dos ativos e resgatou do portfólio da Philips mundial a marca Elcoma (que significa Electronic Components and Materials), uma sigla que havia estado em Pernambuco na primeira metade da década de 1970, nominando a divisão de semicondutores instalada na fábrica do Curado (onde hoje funciona a Gerdau) e que foi cedida ao neoempreendedor.
Corria o ano 2000. Era o ano de nascimento do empreendedor Julio Gil e do renascimento da Elcoma, que no início utilizava as mesmas instalações da divisão holandesa e assumia a carteira de clientes de microcomponentes que havia sido desenvolvida por ele, como diretor – e, junto com ela, seu faturamento. Mas agora a história era outra, e Julio Gil Freire estava pronto para escrevê-la.

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